o Sin gula r

segunda-feira, 3 de março de 2025

O Oscar 2025 e a Mesmice de Sempre: Hollywood Premia o Conveniente, Não o Incontestável

 O Oscar 2025 deixou claro que a indústria americana continua a mesma: hipócrita, previsível e obcecada por juventude e sex appeal. Anora levou a Estatueta de Melhor Filme, um filme insosso e capaz de curar a pior das insônias; mas pior que isso, Mikey Madison levou Melhor Atriz enquanto Demi Moore e Fernanda Torres entregaram atuações brutais? Enquanto eu assistia esse show de horrores, cheguei a me perguntar se eu não tinha pego no sono e aquilo era um pesadelo.


Demi Moore, que renasceu das cinzas em A Substância, fez um trabalho monstruoso, visceral, escancarando a podridão de Hollywood. Uma mulher mais velha, dona de si e expondo o sistema? Ah, claro que a Academia não ia premiar isso, Hollywood não gosta de rugas. Já Fernanda Torres entregou uma atuação absurda em Ainda Estou Aqui, mas a gente sabe como funciona: a Academia pode até dar um Oscar de Melhor Filme Internacional, mas Melhor Atriz pra uma brasileira? Num filme que denuncia os absurdos criminosos da ditadura? Nunca. Não importa o peso dramático, a entrega ou a grandiosidade da atuação. Enquanto isso, premiam uma atriz novinha com uma performance esquecível em Anora, deixando de lado a brutalidade de Demi Moore e a força arrebatadora de Fernanda Torres. No fim, Hollywood continua escolhendo o que é conveniente, não o que é incontestável.


A escolha de Mikey Madison só reforça o que A Substância denunciou: o culto à juventude, à beleza descartável e à superficialidade. O Oscar premiou o que é fácil, o que vende bem, e ignorou o que realmente teve impacto. O discurso é sempre de progresso e inovação, mas as atitudes mostram que a Academia continua tão previsível quanto sempre foi. Quanto a mim, como prometi que faria, não assistirei mais as premiações.



Hugo Lobo

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Sem vantagens na morte da mãe de meu pai

Acabei de receber a notícia do falecimento da mãe do meu pai. A velha morreu. Soube por uma tia com quem ainda mantenho alguma comunicação, ainda que cifrada. Já adianto: não estou enlutado. Não é sobre minha avó, é sobre a mãe de meu pai, apenas; esses vínculos já não são meus para carregar faz tempo.

Ela foi uma mulherzinha amargurada, que viveu anos demais e colecionou mágoas demais. Teve um casamento infeliz e fez de tudo para interferir nas vidas conjugais dos filhos homens. No caso do meu pai, ele tratou de fazer todo o resto por conta própria. Parecia que ela punia neles o que odiava em meu avô – o fato de ele ser negro, pobre, do campo.

Ela, à época de seu casamento, já ficando para tia, uma moça velha, foi forçada a casar com ele – um avô excelente para mim, mas de quem não sei se foi um marido minimamente bom. Mesmo assim, ela nunca deixou de tratá-lo com desprezo, e, ao que parecia, essa amargura foi transferida para os filhos homens. No dia do casamento dos meus pais, ela chegou a trancar meu pai no banheiro para impedi-lo de se casar com minha mãe. E assim foi com os outros filhos homens, cuja legitimidade das parceiras nunca foi reconhecida por ela, que fez questão de arruinar a vida conjugal delas, e de seus filhos "ilegítimos" na opinião dela. Sempre, SEMPRE.

Eu e meu irmão percebíamos o tratamento diferenciado. "Menos", para dizer o mínimo, do que o que ela oferecia aos outros netos, os "legítimos" – filhos das filhas que casaram com homens abastados. Para esses, amor e presentes caros; para nós, migalhas afetivas e uns trocados. Era óbvio o porquê, mas aos poucos isso foi perdendo qualquer peso para mim.

O que sinto é um alívio estranho, um alívio simbólico. Porque não muda nada do que passou: não junta meus pais, não refaz minha infância, não cura meus traumas, nem restaura minha fé na monogamia, que para mim morreu antes dela, enterrada nas constatações precoces sobre a inviabilidade crônica dessa configuração relacional, pelo menos na minha família, nessa minha primeira e mais importante referência. Esse alívio alivia apenas o presente, sem mexer em nada no que foi.


Hugo Lobo

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Down

 The London Bridge is down e eu também. Eu estou no oco de mim. Muitas vozes na cabeça, um freestyle cacofônico nos ouvidos, não me escuto, não me sinto. Me virei do avesso me procurando e já não estava, não restava, vazio. Vazio. Eu não estou lá, eu não estou em lugar nenhum, eu não estou lá nem aí, eu não estou. Me matar assim aos poucos é uma pena, é uma lástima.

domingo, 12 de dezembro de 2021

A carta que não chegou

          Caro triste amante,


Foi ontem o fim da nossa distopia, do amor impossível. De tantos retalhos de conversas e acordos pespontados, eu cheguei aos trapos.

Eu entrei neste barco segurando tua mão e assumindo que mesmo que eu não soubesse navegar, eu aprenderia e não te poria em riscos. Perdi as contas de quantas vezes você se jogou ao mar aberto e eu fui te buscar de volta.

Afoito que és, fostes tu que tantas vezes me colocou a perder, a derivar e nunca me buscar. Eu mesmo que sempre cuidei de voltar, ao custo que fosse.

Ontem eu aceitei enxergar o que nunca quis e vi um homem pequeno, ensimesmado, cheio de si, tão cheio que alí fazia todo o sentido de porque eu não cabia em ti. Enxerguei teu desrespeito e desleixo, enxerguei mais do que os olhos podiam (deveriam) ver. E de tão pequeno, miúdo em virtudes, enxerguei finalmente o qual grande sou perto de ti, e "é uma pena, mas você não vale à pena, não vale uma fisgada desta dor".

Se um dia te fiz dobrar os joelhos, fiz contigo em igual gesto para provar o meu desejo de que fossemos iguais. Se perdoei tantos impropérios, foi porque quis te mostrar como o perdão é vital e regenerativo.

Eu cansei, não como nas outras vezes, eu cansei de olhar para ti, lembrar de tuas promessas e constatar sua imbecil incapacidade de cumprí-las. Talvez nada fosse sobre você não conseguir cumprir o que prometia, mas mais por você não querer mesmo por vaidade das vaidades, por ser de fato um hedonismo e egocêntrico.

Quantos silêncios aguentei enquanto eu chorava e tremia de cólera. Você foi diferente dos outros, devo confessar, você foi pior, mais maléfico e danoso à minha saúde mental e emocional. Você definitivamente superou o pior dos amantes que tive. Se penso no mais fraco deles me vem os versos "ele era mil, tu és nenhum, na guerra és vil, na cama és mocho, TIRA AS MÃOS DE MIM!".

Se te amo ainda hoje? Tenho vontade de me estapear até não amar mais, mas assim, mais uma vez, só faria mal a mim mesmo. Agora, neste momento, eu não sei o que dói mais: se os pontos da boca que estouraram ontem na nossa última discussão ou o rombo terrível que você fez no meu peito.

As mensagens que te mandei, mesmo que ignoradas por você ter presenças mais nobres foram as mais sinceras. As velas que acendi no chão frio, minhas lágrimas todas, nada foi em vão! Você vai virar gente na marra e nunca mais vai ser capaz de provocar tanto mal estar em quem quer que seja.

Eu vou te esquecer, custe o tempo que custar, vou te esquecer e seus olhos nunca mais vão me achar, suas mãos nunca mais irão me tocar. Você perdeu o Homem da tua Vida sem qualquer possibilidade de reencontrá-lo.


          Adeus


sábado, 4 de dezembro de 2021

Notas de rebentação

Primeiramente me perdoe o desabafo, em seguida me perdoe a tentativa desta semana, eu não consegui mais uma vez. 

Me sinto sufocado, sufocado mesmo, até abro o peito para tentar fazer passar.

Tudo está tão apertado, claustrofóbico e espinhoso. Eu mal caibo dentro de mim, eu e tudo o que dói.

Depois dos trinta as pequenas dores se tornaram torturas excruciantes, agora por exemplo dói tenebrosamente: a realidade arranca meu coração do peito com um gancho e eu não sei o que fazer para esta dor parar, mas talvez eu saiba.

Eu sinto vontade de fazer tudo de novo, mas desta vez do jeito certo, para parar de doer de uma vez e nunca mais ter de me arrepender por não ter conseguido. Quem sabe conforme a vida se esvai, o faz também a consciência e seus pesos todos. Morrer deve ser como nascer, só que ao invés de chorar a gente cala.

Tudo parece tão fino, tão delicado, sensível. Olho para meus pulsos, as veias saltadas pulsam, vida e morte misturadas. Eu estou tão mal, cara, não sei se vou conseguir terminar isso aqui.

Me falta ar, eu não sei a quem recorrer, se quero recorrer.


Hugo Lobo

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Desenredo


Coração fodido, desacreditado, fostes tu quem me trouxe até este mais breu dos breus. Foi tua confiança, teu amor impossível e alienígena.

Você não pertence, não se encaixa, não é como eles, nem para eles; que apesar de todos homens serem iguais, tu coração, tens memória curta, tens boa fé e tens as melhores das intenções, até que não tens mais nada!

E agora, coração? Vais culpar os astros e seus trânsitos, a política, a pandemia? Fala, coração! Ou sua boca também levaram?

Chegastes aqui, me arrastando contigo, rolando em seus próprios fluidos, pendurado nas veias das próprias veias, chegastes onde já não há mais coração. E eu, coração? Neste breu sem Norte, nem sorte, sem fôlego qualquer. Caí no teu desenredo, achei que teu poço tinha fundo e tesouros, mas apenas continuo a cair e sinto falta de quando tinha chão sob meus pés. Matastes-me mais uma vez.


Hugo Lobo

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

3:33am

 03:33am

Viajamos no feriado pelas praias de Sergipe, paramos para beber e se refrescar na Lagoa dos Tambaquis. Lá ia me afogando e fui salvo por um homem, num jet-ski, chamado Hugo, que tinha minha idade, mesmo peso e que havia nascido no dia 24 de algum mês que não lembro agora. Adicional pontuar que o caiaque onde eu estava virou 2 vezes e por ter sido vencido pelo cansaço não consegui subir de novo na segunda vez. O Jet-ski do Hugo também capotou uma vez e desviramos ele juntos (mesmo diante de minha total inaptidão para "descapotar" jet-ski). Parecia que aquele era meu dia e pronto. Fui salvo.

Em terra novamente tornei a beber com quem me acompanhava, discutimos e o resultado foi o texto anterior a este: trágico.

Desde que voltei para casa, no mesmo dia, boca da noite, comecei a perceber padrões de repetição quando olhava as horas. Ex.: chegamos às 17:17, jantei às 20:20, acordei no outro dia às 5:05, comecei a escrever este texto às 3:33 e na última vez que olhei o relógio eram 4:04. Isto está me tirando meu pouco sossego.

Tenho ficado mais irritado que o normal durante os dias que se passaram, sobretudo com pessoas, não tenho suportado pessoas. No trânsito, dois dias atrás, um imbecil jogou o carro contra mim e se eu não tivesse pensado rápido teria acontecido pelo menos uma colisão tripla. As filas parecem se demorar mais, as insônias mais inoportunas que nunca - Respiro.

Não quero entrar nesta paranoia de a morte está me perseguindo; hoje não, Donnie Darko!

Agora, sinceramente, eu só gostaria de adormecer de novo e acordar disposto para mais uma semana.

Hugo Lobo

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Fora de alcance


 
4:12 da manhã, olhos doloridos, corpo frio. Foi ontem que me cansei de ti e de tudo sobre nós. Tantos desfalques e promessas quebradas que um Homem como eu não poderia nunca aguentar. Ainda me sinto anestesiado, não me lembro como, ou quando isto passa, mas preciso que passe antes que o desassossego me dê de comida para a depressão. Dormente e com medo do que virá em seguida, pois o dia amanhece e eu ainda estou aqui no ontem. Desta vez o seu "amor não me alcançou" e isto me embaça os olhos novamente.

Hugo Lobo

sábado, 9 de outubro de 2021

Nem nada


Voando baixo, fora do radar
Calado, quieto, nem me mexo mais
Olhos fechados, encolhido
Parte da paisagem
quase já nem existo
Uma mosca branca numa parede branca
Sem rastro, nem nada.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

João


Desolação. (Sobre)vivemos em um ex país, em uma ex democracia. Me questiono sobre se ainda me sinto brasileiro e, caso me sinta, continuo: o que é ser brasileiro hoje em dia.

Erramos no tempo, no ritmo, o caldo desandou e não tem volta. 6 em cada 10 brasileiros hoje passam fome e vivem na miséria. Até agora só temos 14% da população vacinada, enquanto os EUA já estão vacinando adolescentes.

Países como a Austrália e outros de primeiro mundo já vivem uma normalidade, ainda que sintética e meticulosa.

Hoje pela manhã recebi por um amigo a notícia que João Carlos havia falecido por conta da covid. Eu não consegui reter muito mais do que ele tenha falado após a notícia de morte. João, meu irmãozinho - Assim eu o chamava e ele a mim de irmãozão.

Aquele vácuo de estampir os ouvidos e desnortear me abateu e ao agradecer ao amigo que me informara da tragédia desliguei e sinceramente chorei. Chorei porque me lembrei da primeira vez que ele me chamou de cunhado, das vezes que jogamos* basquete e comemos croassonho... Das rodadas de poker e cervejas aqui em casa, das saídas com minha mãe, meu irmão e Carlos. Chorei. Chorei porque amei aquele homem em sua ridícula simplicidade e amabilidade.

Informei a alguns dos nossos próximos do que acontecera até não conseguir mais, tomei algo forte e me enrolei nos lençóis. A voz, a risada dele, os olhinhos miúdos e aquela barba que sempre invejei. Nossos abraços, momentos de fragilidade mútua, conversas das quais ninguém precisou saber. Chorei copiosamente.

Se me perguntarem o que o matou de pronto me adianto e digo que foram as escolhas, ou a falta delas, desse Genocida que preside o Brasil, a mesma Ex Nação da qual eu falara. Todo o negacionismo, desdém e maldade investida. Foi Bolsonaro que matou meu amigo João. Foram as 14 negativas à ofertas de vacinas de laboratorios, foi o comportamento facista e deplorável que arruinou as relações exteriores com potências como a China e Rússia diminuindo qualquer esperança para este não mais país. 

Eu sinto muito, irmãozinho, eu sinto demais. Amo você por quem foi e por quem continuará sendo em minhas memórias. Você foi icônico em humildade e generosidade. Vai em paz e até logo mais em uma melhor instância. Que nossa ancestralidade te receba e acolha também teus familiares em amparo e acalanto.


Sinceramente,

Seu irmãozão

Hugo Lobo